Saúde sexual e reprodutiva: pela melhor utilização dos dados
Com a dificuldade de acesso dos gestores locais às bases de dados
sobre saúde sexual e reprodutiva, a avaliação dos serviços nessa
área nos municípios tem sido bastante prejudicada. Esse problema
foi confirmado pelos primeiros resultados do projeto "Indicadores
Municipais de Saúde Sexual e Reprodutiva", divulgados no último
dia 10 de dezembro, na 12a Conferência Nacional de Saúde, em
Brasília. O projeto está inserido no Subprograma de Saúde
Reprodutiva do Fundo para a População das Nações Unidas (UNFPA) e
reúne um grupo de especialistas de instituições governamentais e
não-governamentais, tanto no setor de ensino-pesquisa quanto no de
pesquisa, sob a coordenação colegiada da Associação Brasileira de
Estudos de População (Abep), Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística (IBGE) e UNFPA.
A iniciativa surgiu devido à necessidade de uma maior
sistematização das pesquisas de interesse para o tema, pois, além
da dificuldade de acesso aos bancos de dados, as informações estão
dispersas em vários meios de divulgação. "Os bancos estão
dispersos nas secretarias municipais de saúde, conselhos,
delegacias de mulheres, censos demográficos etc. e muitas vezes
não são de fácil acesso. Não existe um sistema que reúna esses
dados", diz a coordenadora geral do projeto Suzana Cavenaghi, da
Abep.
Assim, o projeto pretende construir um sistema de indicadores
capaz de traçar um panorama da situação dos serviços de saúde
sexual e reprodutiva nos municípios e, dessa forma, contribuir
para o monitoramento desses serviços. A idéia é que os indicadores
se transformem em um instrumento útil na integração das questões
de saúde reprodutiva em programas estratégicos nacionais, assim
como na programação e avaliação das ações realizadas na área. Além
disso, pretende contribuir para a melhoria da disponibilidade, do
acesso e da qualidade dos serviços de saúde sexual e reprodutiva
nos municípios.
Para definir um conjunto básico de indicadores, a Abep buscou
parcerias com instituições de diferentes áreas, como o Ministério
da Saúde, IBGE, Rede Feminista de Saúde, Bemfam, SOS Corpo, Ibase,
entre outras. A partir da coleta e reunião das bases de dados,
delineou-se um sistema que inclui indicadores de fecundidade,
gravidez, pré-natal, parto, DST/Aids, doenças do trato reprodutivo,
violência, disponibilidade e acesso a serviços e insumos. Também
há indicadores de contexto sobre a população em geral e população-alvo.
Indicadores em teste
O projeto, que começou em 2002, está atualmente na etapa de
experiência-piloto em 130 municípios escolhidos aleatoriamente
(que incluem desde capitais até municípios de dois a três mil
habitantes). Realizada conjuntamente pelo Núcleo de Estudos de
População (Nepo) e o Centro de Desenvolvimento e Planejamento
Regional (Cedeplar) e sob a coordenação da Abep, a experiência-piloto
visa testar a viabilidade da aplicação do conjunto de indicadores
selecionados. Permitirá também identificar as potencialidades e
limitações dos bancos de dados disponíveis assim como a qualidade
das informações neles contidas. "A idéia é ver o que acontece na
prática: os dados são de fácil acesso, de boa qualidade? São
coletados de forma correta?", explica a coordenadora do projeto. A
conclusão da experiência, que teve início em outubro, está
prevista para o final do mês de fevereiro. Terminada esta etapa,
será realizado um workshop para a apresentação do relatório final.
As etapas seguintes são a implementação de um sistema
informatizado de indicadores de saúde sexual reprodutiva e a
capacitação de técnicos e gestores para monitoramento,
interpretação e análise da qualidade dos serviços de saúde sexual
e reprodutiva no país. O início das atividades de capacitação
ficará para 2005. De acordo com Suzana, a capacitação vai ajudar
os profissionais a interpretarem e usarem os dados de forma
adequada, para aplicação no dia-a-dia dos seus locais de atuação.
Suzana acredita que, até o meio do ano, os indicadores dos 130
municípios estarão disponíveis na página do Data Sus, e que, até o
final de 2004, todos os municípios brasileiros serão incluídos no
sistema informatizado. Qualquer pessoa poderá ter acesso ao
sistema: para os acadêmicos será muito útil, mas a iniciativa é
voltada principalmente para os técnicos da área de saúde. Os
indicadores apontarão os problemas que merecem mais atenção, como
o aumento da incidência de alguma doença num município, por
exemplo. "Os indicadores servirão para alertar e também para
sugerir programas de saúde", prevê a coordenadora.
Mariana Loiola
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