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Fátima Oliveira
Escreve no Magazine às quartas-feiras.
fatimaoliveira@ig.com.br
Sim, eu defendo a legalização do aborto!
Durante o I Fórum Social Brasileiro (BH, 6 a 9/11/2003) um setor
reacionário e hipócrita da Igreja Católica mineira distribuiu, a
rodo, um jornal com um artigo dizendo que eu defendia a
legalização do aborto e instava a católicos a me considerar
“persona non grata”. Algo desnecessário, pois a minha posição é de
domínio público: sim, eu defendo a legalização do aborto! Eu e
milhões de feministas, inclusive as católicas. As mulheres abortam
porque precisam. É imoral impor uma responsabilidade do porte da
maternidade quando a mulher não pode ou não deseja. O desejo de
ser mãe, assim como o de não ser se eqüivalem. Quem deseja uma
prole fará tudo o que estiver ao seu alcance para obtê-la. Quem
não deseja, também. São expressões de desejo do fórum íntimo da
mulher que precisam ser respeitados pelo Estado, pela sociedade e
pelas religiões também! Respeitar o direito de decidir das
mulheres é defender a vida delas.
E mais, tenho a convicção que uma vida em perspectiva (embrião)
não pode ter mais direitos do que uma vida plena. O pasquim
católico mineiro não teria importância para além de desnudar a
hipocrisia de quem defende "Guerras Justas/Santas", como o
Vaticano o faz, se não fizesse parte de uma estratégia
maquiavélica cujas raízes estão fincadas na sucessão do trono de
São Pedro. É sabido que as chances latino-americanas na Capela
Sistina, sobretudo as pretensões brasileiras, serão em muito
reforçadas por quem chegar lá com uma "flor na batina", tipo a lei
do Dia do Nascituro. O Brasil é o único país da América Latina que
não consta em sua Constituição a proteção à vida desde a concepção.
O que explica a sanha persecutória de fundamentalistas católicos
de projetos de lei sobre aborto nas Câmaras de Vereadores e
Assembléias Legislativas de todo o Brasil e no Congresso Nacional.
Há boatos de que não deve estar longe um Conclave na Capela
Sistina. O governo e o povo brasileiro não podem permitir que o
debate sobre o aborto em nosso país seja a "azeitona da empada" de
qualquer papável. Somos um Estado laico que não permitirá que os
corpos das brasileiras seja o preço pago para que haja um papa
brasileiro. Para quem duvidava que os corpos das mulheres poderiam
ser moeda de troca em uma eleição papal, o caso brasileiro é
exemplar! É asqueroso que setores reacionários da Igreja Católica,
tentem, mais uma vez, reabilitar práticas colonizadoras dos corpos
das mulheres para seus mesquinhos intentos. Eis o cerne da manobra,
milimetricamente arquitetada, para aprovar um projeto de lei para
instituir em nosso país o Dia do Nascituro – estratégia
desesperada de impor um retrocesso na lei sobre aborto que nos
levaria ao começo da década de 1930, na qual o aborto era
totalmente proibido.
A maquiavélica estratégia contou também com um artigo de um dos
papáveis (FSP, 16/11/2003) denominado Aborto e Lei, mas os
tentáculos chegavam à Câmara dos Deputados (Comissão de Seguridade
Social e Família/CSSF), cuja presidenta, uma petista, é também a
relatora do referido projeto e deu parecer favorável a ele. Mas o
fundamentalismo religioso embota a lucidez e a deputada ousou mais.
Usando da prerrogativa de presidenta da CSSF, dia 19 de novembro
pautou vários projetos sobre aborto ao seu bel prazer,
desrespeitando a realidade que, sendo o Brasil um país democrático
e laico, suas leis não podem privilegiar visões religiosas,
sobretudo em assuntos nos quais o debate público ainda é
insuficiente.
As artimanhas da hipocrisia eleitoreira rumo à Capela Sistina de
quem privilegia a vida humana em perspectiva (embriões/fetos)
contra vidas humanas plenas (das mulheres) foram derrotadas, ainda
que parcial e temporariamente, pois a sensatez da maioria de
parlamentares integrantes da CSSF conseguiu postergar o embate,
sob o argumento que o tema precisa ser analisado à luz das leis
vigentes no país e dos compromissos assumidos pelo Estado
brasileiro nos espaços das Nações Unidas – que, como sabemos,
recomendam a descriminalização do aborto, exemplo seguido pelas
resoluções da 11ª. Conferência Nacional de Saúde (2002).
O Estado brasileiro possui uma das leis mais restritivas do mundo
sobre o aborto, só o permitindo em casos de gravidez resultante de
estupro e em risco de vida da gestante, o que nos leva a
corroborar o diagnóstico e as propostas elaboradas por latinas e
caribenhas no 9o. Encontro Internacional Mulher e Saúde (Toronto,
Canadá, 12 a 16/08/02) que afirmam que em nossos países as
mulheres morrem por abortos inseguros, graças a legislações
restritivas e penalizadoras; que o movimento de saúde das mulheres
e o feminista têm buscado construir sociedades mais justas,
eqüitativas e democráticas; o debate sobre o direito ao aborto é
uma questão de Justiça Social e de exercício da cidadania; e que
devemos nos opor à política e ao modelo neoliberal implementados
por nossos governos, pois são devastadores da qualidade de vida e
da saúde das mulheres; denunciar as tentativas e políticas que
pretendem colonizar os corpos das mulheres, violando direitos e
atentando contra a cidadania; recuperar a radicalidade do
movimento pela saúde, os direitos sexuais e reprodutivos; e buscar
a Justiça de Gênero.
Setores conservadores do catolicismo deveriam fazer um "mea culpa"
pela omissão em relação à vida das mulheres e pelo descaso
histórico para com as crianças vítimas de pedofilia sacerdotal. O
dinheiro das milionárias doações "pro life" também é dinheiro
público, e seria bem usado se destinado a proteger crianças das
garras de sacerdotes pedófilos. O oficialato católico durante
séculos acobertou práticas pedófilas nos esconderijos de
sacristias pelo mundo afora. E só se manifestou, timidamente,
contra quando forçado pelas indenizações que sangra os cofres de
Roma em milhões de dólares. Não que as indenizações sejam
milionárias. É que os casos medram como os cogumelos. Até no
Brasil. Nas sociedades contemporâneas uma postura firme contra a
pedofilia é um tema mais adequado para ser a azeitona da empada de
qualquer papável.
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