O AMOR QUE NÃO PODE MAIS SE CALAR
Neusa Cardoso de Melo*
" Prefiro ao ópio, ao vinho, à bêbada loucura,
O elixir dessa boca onde o amor se engalana;
Se meus desejos vão a ti em caravana,
É do frescor dos olhos teus que ando à procura."1
Quando Lord Alfred Douglas cunhou a frase: "o amor que não ousa
dizer o nome", referindo-se aos seus sentimentos amorosos e
sexuais
por pessoas de seu próprio sexo, mais especificamente pelo
escritor Oscar Wide, dificilmente poderia imaginar a repercussão e
o significado
que estas palavras ganhariam ao longo dos anos em quase todo o
mundo. Lord Douglas e Wilde protagonizaram um dos mais
apaixonados e conturbados romances homossexuais da história. Na
Inglaterra Vitoriana do século XIX, a prisão e a ruína foram o
preço
cobrado pela intolerância e o preconceito a Oscar Wide, que como
tantos outros, ousa viver um amor proibido por rígidas leis que
visavam
regular o afeto e normatizar a sexualidade.
Hoje, passados mais de um século da triste história de amor entre
Wide e Lord Alfred, muita coisa mudou em relação a aceitação e
visibilidade dos homossexuais no mundo e especialmente no Brasil.
Certamente avançamos muito, particularmente através do Judiciário,
que vem decidindo em favor dos homossexuais em várias questões
envolvendo guarda de filhos, herança e até a inclusão de parceiros
do
mesmo sexo no direito aos benefícios da Previdência Social. O
recente caso envolvendo a concessão da tutela definitiva de
Chição, a Maria
Eugênia Martins, companheira de sua mãe, Cássia Eller, por 14 anos
ilustra bem este avanço. No âmbito do Legislativo, mais permeável
a
influência dos conservadores, também pode ser verificados avanços,
vários Estados e Municípios já possuem leis que punem a
discriminação
por orientação sexual.
No que se refere ao contexto social mais amplo, a "Batalha de
Stonewall" , em Nova York no final dos anos sessenta, marca sem
dúvida,
uma ruptura na postura que os homossexuais assumem em relação a
sociedade, definindo de forma irreversível o início de um
movimento
que foi ganhando as ruas do mundo ocidental, refletindo as
mudanças na percepção que os gays têm de si mesmos e sua condição.
A
invisibilidade e a vergonha, vão dando lugar ao orgulho. Gays,
lésbicas bissexuais, travestis e transexuais abandonam os guetos e
ganham
as ruas através de grandes paradas. Com muita música, colorido e
alegria, as paradas do Orgulho LGBTT, a cada ano conseguem reunir
um maior número de pessoas em várias cidades do país. A Parada de
São Paulo este ano conseguiu levar as ruas cerca de 600.000
pessoas,
constituindo-se em um dos maiores eventos populares do país e não
encontrando rival em nenhuma outra marcha organizada por outros
movimentos por direitos individuais.
Vendo a proporção que as paradas assumiram, cabe refletir sobre os
motivos que levam milhares de pessoas a ocupar de forma
transparente, contundente e exuberante as ruas de tantas cidades
de tantos países. Pessoas que foram culturalmente condicionadas a
viverem na sombra, na invisibilidade, na opressão e que,
historicamente, tiveram negado o mais elementar dos direito, de
amar e ser
amado. É preciso considerar a importância que os movimentos
tiveram no processo de abertura das discussões sobre o tema, na
organização dos grupos, no encaminhamento das principais bandeiras
de luta e, principalmente, na coragem de ir a rua, quando ninguém
acreditava na possibilidade de viver esta condição de forma plena,
escondidos que estavam nos guetos e na impossibilidade da
existência. É
preciso considerar ainda, que os movimentos foram capazes de
compreender e difundir a mais cristalina das verdades, a de que
lésbicas e
gays são pessoas comuns e que "estão em todos os lugares", em
todas as classes sociais, todos os partidos, todos os movimentos,
todas as
categorias profissionais, são de todas as idades, credos e níveis
culturais. Mas acima de tudo os gays, seus amigos, seus parentes e
simpatizantes, vão às ruas não por causa dos movimentos, dos
partidos, nem de ideologias. Quem vai à parada do orgulho gay, vai
por
que quer deixar a aparência e quer "ser". O amor que não ousava
dizer o nome, agora não pode mais se calar. Quer o direito, às
mãos
dadas, ao carinho espontâneo, ao beijo na boca, a expressão livre
do afeto. Quer o respeito à sua estética própria, à diversidade e
a exercer
o inalienável direito de buscar a felicidade com quem quiser.
Entretanto, as paradas só duram um dia, como no título do poema de
Baudelaire citado na epígrafe: os homossexuais brasileiros, "estão
satisfeitos, mas não saciados". No cotidiano, é possível afirmar
que ainda não podem ser considerados sujeitos de direitos.
Enquanto a
legislação não incorporar e regulamentar de forma clara e
inequívoca a união civil, o direito de herança, o direito a ter
filhos (adotados ou
não), a proteção contra as várias formas de discriminação e
violência e vários outros direitos que venham trazer para tod@s
(lésbicas, gays,
bissexuais, travestis, transexuais e qualquer outra variação que
este grupo criativo possa vir a experimentar), o significado real
que a
palavra cidadania pode alcançar.
Por isso, neste momento em que assume um novo Presidente, eleito
com recorde de votação, com amplo apoio dos movimentos sociais e
da
população, resta a expectativa e a esperança de que estas milhões
de pessoas sejam reconhecidas e vejam o seu direito garantido pela
lei e
resguardado pelo Estado.
Nota
1 Epígrafe retirada do poema XXVI – Sed non satiata, In:
BAUDELAIRE, Charles. As flores do mal. Trad. Ivan Junqueira. – Rio
de
Janeiro: Nova Fronteira, 1985, pg. 165.
* Neusa Cardoso de Melo é geógrafa e Secretaria Executiva Adjunta
da Rede Feminista de Saúde, eleita em maio de 2002.
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