MARIA DA PENHA:
''O que foi feito não o é justiça''
Foram 19 anos de espera até que Maria da Penha Maia Fernandes
presenciasse a prisão do ex-marido, que condenado, após uma
tentativa frustrada de homicídio, deixou-a paraplégica. Em
entrevista ao O POVO, ela fala da vitória pessoal, da lição de
vida, das
angústias, e da demora da Justiça
Cidiclei Miranda da Redação
04 Novembro
Uma longa espera. Restava apenas sete meses para completar 20 anos
da tentativa de homicídio que a deixara paraplégica. Trágico
fim de um casamento da qual esperava encontrar tranqüilidade. Mas
a farmacêutica-bioquímica Maria da Penha Maia Fernandes,
57, não poupou esforços, neste ano, para ver o seu ex-marido Marco
Antônio Heredia Viveros atrás das grades. Com a ajuda da
Organização dos Estados Americanos (OEA), ela finalmente tirou o
''peso de suas costas'', e se tornou símbolo de combate à
violência contra a mulher.
De longe quer encarnar o papel de justiceira, mesmo porque, no seu
caso, não acredita que foi feito justiça. Foram longos anos de
uma expectativa angustiante, diante da total lentidão do Poder
Judiciário brasileiro. Período em que não se contentou em ficar
apenas sentada numa cadeira de rodas, esperando o desenrolar dos
fatos. Tratou de expurgar os fantasmas, escrevendo um livro,
onde desabafa.
Hoje, também coloca pra fora um pouco de tudo o que passou, com
mais segurança e alívio. Da noite do crime ao seu cotidiano
atual, ela mescla sofrimento, esperança e emoção, mesmo não
preferindo lembrar do homem com quem foi casada. Um colombiano,
naturalizado brasileiro, professor universitário, e admirado por
muitos, que, para ela, não merece perdão, nem tão pouco
lembranças suas.
Engajada em entidades como a Associação dos Parentes e Amigos de
Vítimas de Violência (APAVV) e o Observatório do
Judiciário, ela diz que vai continuar sua caminhada contra a
morosidade da Justiça, para que não se torne ''injustiça qualificada''.
Como também reescrever seu livro, dando o final feliz que tanto
esperava, pois como ela própria enfatiza: ''sobrevivi e posso
contar''.
MEMÓRIA
Crime aconteceu em 1983
Na madrugada do dia 29 de maio de 1983, Maria da Penha Maia
Fernandes sofreu uma tentativa de assassinato de Marcos
Antônio Heredia Viveros, então seu marido. Segundo ele, foi um
assalto. As investigações, no entanto, provaram que se tratava de
mais um crime de violência doméstica contra a mulher.
O caso foi a julgamento pela primeira vez em 1991. O júri, por
seis votos a um, decidiu que ele era culpado pelo crime, sendo
condenado a 15 anos de reclusão. Seus advogados entraram, então,
com recursos que anularam a decisão judicial. Eles alegavam
que havia má formulação de um dos quesitos do julgamento.
Depois de três adiamentos, o segundo julgamento aconteceu no dia
14 de março de 1996, com uma nova condenação de Marco
antônio, desta vez com uma pena menor de 10 anos e 6 meses de
reclusão. Novamente os advogados do réu entraram com um
pedido de anulação da condenação, porque esta ia contra as provas
dos autos.
A defesa alega que não há nada de concreto que prove a tentativa
de assassinato contra a ex-esposa, e que não houve forjamento
de provas de assalto. O próprio Marcos Antônio, ao chegar preso em
Fortaleza, na noite do dia 1º de novembro de 2002, disse ser
vítima de perseguição. Mesmo assim não quis se defender perante à
equipe do O POVO, presente na ocasião, se negando a dar
entrevista.
O grande empurrão para a prisão do professor universitário
aconteceu no dia 1º de maio de 2001, quando o Brasil foi condenado
pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), da
Organização dos Estados Americanos (OEA), pela omissão,
tolerância e impunidade nos casos de violência contra as mulheres.
A denúncia contra o Brasil havia sido feita pela Maria da Penha,
juntamente com o Centro pela Justiça e o Direito Internacional
(Cejil) e o Comitê Latino-americano pela Defesa dos Direitos das
Mulheres (Cladem). No dia 15 de outubro, foi dada a ordem de
prisão pela Justiça Brasileira.
No dia 29 de outubro, munidos por uma carta precatória assinada
pelo juiz Henrique Jorge Holanda Silveira, responsável pela 1ª
Vara do Júri, policiais da delegacia de capturas e Polinter de
Natal prenderam Marcos Antônio quando este dava aulas na
Faculdade Potyguar.
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