Rede Feminista de Saúde divulga artigo da Ministra Nilcéa Freire
sobre o caso de indiciamento judicial de mulheres em Mato Grosso
do Sul
Porto Alegre, 24 de abril de 2008
Assunto: Artigo assinado pela Ministra Nilcéa Freire
publicado no jornal O Globo, RJ, de 24 de abril de 2008 -
Coluna Opinião - a respeito do caso de Mato Grosso do Sul,
em que cerca de dez mil mulheres poderão ser julgadas,
acusadas de terem provocado a interrupção voluntária da
gravidez
Fúria judicial contra as mulheres
Está em curso, em Mato Grosso do Sul, um episódio
assustador e de imensa fúria persecutória contra os
direitos sexuais e reprodutivos das mulheres, no Brasil.
por
NILCÉA FREIRE
Nada menos do que 9.896 mulheres mato-grossenses estão
prestes a serem interrogadas e levadas a julgamento, num
só processo, no qual são acusadas de terem provocado
abortos, desde o final dos anos 90, conforme decisão do
juiz da 2ª Vara do Tribunal do Júri de Mato Grosso do Sul,
Aloísio Pereira dos Santos. A decisão, historicamente
inédita, é tão injusta quanto estarrecedora, apesar de
encontrar amparo na legislação brasileira.
Em abril do ano passado, houve a instalação de um
inquérito contra a proprietária de uma Clínica de
planejamento familiar, com 20 anos de funcionamento no
centro de Campo Grande (MS), acusada de praticar abortos.
A apreensão de milhares de prontuários médicos daria
origem ao processo em massa contra as quase 10 mil
mulheres.
A delegada Regina Márcia Rodrigues Mota, que conduz o
caso, afirmou que está estudando "a organização de uma
força-tarefa para concluir os inquéritos e remetê-los à
Justiça". O promotor de Justiça Paulo César dos Passos
fundamentou: "A pressa é para evitar a prescrição do
delito, que ocorre em oito anos."
No ímpeto de condenar, a Justiça promoveu constrangimentos
ilegais. Prontuários médicos, dos quais as instituições de
Saúde são as guardiãs, segundo a legislação brasileira,
foram apreendidos e colocados à disposição da curiosidade
de quem quer que seja. Na seqüência, o juiz recuou, devido
à grande procura - principalmente de homens - por
interessados em saber o nome das clientes.
Qual é a real motivação de tamanha truculência? Será que
realmente é o caso de se instituir uma força-tarefa como
se estivéssemos tratando de uma horda de delinqüentes de
elevada periculosidade para a vida em sociedade? Está
sendo justa a Justiça? E a responsabilidade dos 9.896
homens supostamente associados àquelas gestações? Também
será em algum momento lembrada e cobrada judicialmente?
O Brasil é signatário de diversos instrumentos jurídicos e
acordos internacionais, entre eles a Convenção sobre a
Eliminação de todas as formas de Discriminação contra as
mulheres e a Plataforma de Ação da Conferência
Internacional sobre População e Desenvolvimento, no Cairo,
que visam a assegurar o direito à Saúde sexual e
reprodutiva das mulheres. O aborto provocado é
reconhecido, mundialmente, como um importante problema de
Saúde pública, especialmente nos países cujas legislações
restringem a sua prática, como é o caso brasileiro.
Enquanto a taxa de aborto por 1.000 mulheres é de 4/1.000
em países como a Holanda, no Brasil a estatística é 10
vezes maior: 40/1.000. Não há família, no sentido amplo,
que não tenha vivenciado esse drama.
Esse descompasso entre a vida cotidiana das pessoas e a
criminalização da prática do aborto fica evidente no
episódio em curso na Justiça mato- grossense, além de
comprovado por inúmeras pesquisas especializadas.
Para se ter uma idéia, segundo a pesquisa aborto induzido:
Conhecimento, Atitude e Prática de Ginecologistas e
Obstetras no Brasil, realizada em 2005, pelo Centro de
Pesquisas em Saúde Reprodutiva de Campinas (Cemicamp),
aproximadamente 80% dos ginecologistas e obstetras ouvidos
(3.386 profissionais) que viveram alguma situação de
GRAVIDEZ indesejada em suas vidas (homens e mulheres)
optaram pela interrupção voluntária da GRAVIDEZ, mesmo
fora das possibilidades legais vigentes.
O mesmo levantamento, contudo, nos informa que cerca de
50% dos médicos respondentes à pesquisa e que trabalham em
serviços públicos de Saúde, diante de um caso de aborto -
ainda que previsto em lei - optam por pedir a outro
profissional para que realize o procedimento.
Outro estudo do Cemicamp revela que, no âmbito do Poder
Judiciário, quatro de cada cinco magistrados que
vivenciaram uma GRAVIDEZ indesejada decidiram que a
situação justificava a prática do aborto. No entanto,
cerca de 50% dos juízes não abrem mão da exigência de
alvará judicial para autorização da prática de aborto
prevista em lei (casos de risco iminente de morte para a
mãe e Estupro), procedimento desnecessário conforme as
próprias normas jurídicas vigentes.
Esses indicadores demonstram que, quando estamos mais
próximos de quem vivencia uma GRAVIDEZ indesejada, é maior
a tendência a justificar a interrupção voluntária da
gestação, ainda que isso não signifique alteração na
rejeição ao aborto em si.
Todas as pesquisas de opinião revelam que a maioria dos
brasileiros preferiria que nenhuma mulher tivesse que
provocar um aborto. Mesmo aquelas mulheres que terminaram
por provocar um aborto manifestavam opinião contrária a
essa prática, até se verem na situação que as levou a
optar pela interrupção da gestação.
O que está por ser aferido - e a reação da opinião pública
ao caso das 9.896 mato-grossenses poderá contribuir para
esse balizamento - é a taxa de rejeição a prisões de
mulheres por aborto, na sociedade brasileira.
O primeiro passo foi dado, na semana passada, por um
conjunto de organizações feministas e de defesa dos
direitos das mulheres, que denunciou à Subcomissão da
Defesa da mulher, no Senado Federal, a violação dos
direitos humanos das mulheres no contexto do caso de Campo
Grande.
Urge responder, no caso de Mato Grosso do Sul, se está
sendo justa a Justiça.
Nilcéa Freire é ministra da Secretaria Especial de
Políticas para as mulheres da Presidência da República.
Porto Alegre, 02 de maio de 2008
Assunto: Abaixo, matéria de Ana Beatriz Magno, da equipe do
Correio Braziliense, revelando que quatro integrantes do Governo
Federal estiveram em Campo Grande, Mato Grosso do Sul, avaliando
a situação de quase 10 mil mulheres investigadas por interrupção
da gravidez.
Em outro texto, a entrevista da Ministra Nilcéa Freire, da
Secretaria Especial de Políticas para Mulheres, na qual ela diz
que o caso de Campo Grande, demonstra o conservadorismo das
autoridades. Há, também, uma entrevista com o juiz responsável
pelo caso, Aluisio Pereira dos Santos, da 2ª Vara do Tribunal do
Júri, do Mato Grosso do Sul.
Ainda sobre o indiciamento das mulheres, vale conferir a carta
aberta do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher (CNDM)
encaminhada ao Congresso Nacional.
E informamos que na última quarta-feira, 30/04, a Comissão de
Direitos Humanos da Câmara Federal também resolveu se pronunciar
e em nota oficial pediu que as autoridades sul-mato-grossenses
reconsiderem os processos judiciais.
ABORTO
Governo acha julgamento injusto
Comissão de Brasília vai a Campo Grande avaliar a situação
de quase 10 mil mulheres investigadas por interrupção da
gravidez. Para a ministra Nilcéa Freire, caso demonstra
conservadorismo das autoridades
Ana Beatriz Magno
Da equipe do Correio Braziliense
Quatro representantes do governo federal passaram a semana
em Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, para avaliar a
situação das 9.922 cidadãs investigadas pela polícia local
por aborto, conforme publicou o Correio na edição da
última terça-feira.
A equipe de Brasília considera injusto colocar no banco
dos réus as quase 10 mil mulheres que, entre 1998 e 2007,
interromperam a gravidez numa clínica clandestina,
localizada no centro da capital sul-mato-grossense.
Em abril do ano passado, a polícia fechou a clínica. Um
pouco depois, a médica proprietária perdeu o registro no
Conselho Federal de Medicina e o Judiciário determinou a
investigação de todos os prontuários encontrados no
estabelecimento.
A delegada responsável pelo inquérito, Regina Márcia
Motta, conversou na quarta-feira com os integrantes da
Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres, dos
ministérios da Justiça e da Saúde e da Secretaria Nacional
de Direitos Humanos.
Regina Márcia garantiu que não criará nenhuma força-tarefa
para agilizar o indiciamento das mulheres, mas ponderou
que não há como engavetar o caso, sob pena de
prevaricação. "Essa história é constrangedora, mas aborto
é crime", lamentou a delegada, em entrevista ao Correio.
Ninguém faz um aborto sorrindo. Toda pessoa que aborta
está num momento de profunda fragilidade. Não é justo
passar por tudo isso, ainda enfrentar uma delegacia como
uma criminosa, argumenta a ministra Nilcéa Freire, da
Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres.
O juiz responsável pelo caso, Aluisio Pereira dos Santos,
da 2ª Vara do Tribunal do Júri , do Mato Grosso do Sul,
concorda que a palavra "criminosa" é pesada para
qualificar as investigadas, mas não pretende arquivar o
processo. "O aborto é crime, segundo o artigo 124 do
Código Penal. A pena é de um a três anos de detenção", diz
o juiz, que emenda: "Mas criminosa é uma palavra pesada
para essas mulheres. Na verdade, elas não são criminosas.
Elas se envolveram num ato considerado crime" .
Entrevista // NILCÉA FREIRE
É preciso rever a legislação
Qual o significado de uma investigação contra quase 10 mil
mulheres?
Acho que há um interesse das forças conservadoras em
tornar esse caso exemplar para todas as mulheres. Algo
mais ou menos assim: abortou, então pronto, conviva com a
força da lei.
Mas, de fato, pela lei brasileira, o aborto é crime...
Sim, o que demonstra a necessidade de discutirmos a
mudança da lei. Veja, o Brasil inteiro tem 26 mil mulheres
presas, cumprindo pena. Se formos levar o caso de Mato
Grosso ao pé da letra, iremos colocar na cadeia 10 mil
mulheres, o que irá aumentar a população carcerária
feminina em 40% de uma só vez, num só estado, por único
delito.
Ao pé da letra, elas não são criminosas?
Essas mulheres se sentiram incapazes de criar um filho.
Elas já sofreram o suficiente. Agora reviver tudo de novo,
vão peregrinar numa delegacia ao lado de criminosos que
mataram, roubaram. No mínimo, não é justo.
Entrevista // ALUISIO PEREIRA DOS SANTOS
Homens serão ouvidos
O senhor é a favor da descriminalização do aborto?
Não posso me manifestar a esse respeito porque sou juiz.
Das quase 10 mil mulheres investigadas, 25 já foram
indiciadas, julgadas e fizeram acordo com a Justiça. Como
foi esse acordo?
Elas farão um trabalho voluntário numa creche para
crianças carentes.
Não é muita crueldade colocar mulheres que abortaram para
trabalhar numa creche?
De maneira nenhuma. É pedagógico. Elas vão olhar aquelas
crianças, muitas vezes mais carentes do que elas, e vão
pensar no filho que elas poderiam ter tido. Vão pensar
assim: "Poxa, meu filho poderia estar aqui e eu poderia
estar cuidando dele".
Por que não tem nenhum homem
investigado se para cada gravidez há sempre um homem e uma
mulher?
Nós vamos investigar também. Na próxima semana ouvirei um
homem. É o namorado de uma moça que a acompanhou na
clínica.
Editora: Ana Paula Macedo//
ana.paula@correioweb.com.br
CNDM - Conselho Nacional dos Direitos da Mulher
CARTA ABERTA AO CONGRESSO NACIONAL
Há mais de 20 anos, o Conselho Nacional dos Direitos da
Mulher (CNDM) sustenta a defesa dos direitos sexuais e
reprodutivos das mulheres, incluso o direito de decidir
pela interrupção voluntária da gravidez, no Brasil.
Portanto, nesse momento em que a 2a. Vara do Tribunal do
Júri do Mato Grosso do Sul coloca 9.922 mulheres no banco
dos réus, acusadas de praticar abortos, vimos a público
manifestar nosso repúdio ao que consideramos uma escalada
inquisitória sem precedentes em nossa história
contemporânea.
Os números falam por si. As 9.922 mulheres que estão
ameaçadas de ir para a cadeia representam cerca de 40% da
população feminina em cumprimento de pena, em todo o
território nacional. Nessa escala, não se trata mais de
uma simples persecução penal, infelizmente amparada pela
legislação brasileira, mas de uma ação política. Nem são
as 9.922 mato-grossenses o alvo dessa ação, mas o gênero.
Ou acaso serão alvo de ações judiciais os milhares de
homens co-responsáveis por esses supostos abortos? Nesse
processo, quem estará no banco dos réus, será a mulher
brasileira.
As práticas sociais legitimam o ordenamento jurídico de um
país, não o contrário. Até dois anos atrás o adultério
ainda era considerado crime pelo Código Penal brasileiro,
de 1940. Diga-se, de passagem, que nunca se ouviu falar
de um homem, condenado judicialmente por adultério, mas
muitos assassinatos de mulheres ficaram impunes com base
na “defesa da honra”.
Várias décadas antes desse anacronismo ser retirado de
nosso ordenamento jurídico, a mudança nos perfis das
uniões conjugais era tal que os operadores do Direito
deixaram de levar em conta a criminalização do adultério.
A vida em sociedade retirou a vigência daquele estatuto,
muitos anos antes de sua formalização institucional e
legal.
Não é diferente o espantoso caso das 9.922 mulheres de
Mato Grosso do Sul. Pesquisa entre magistrados brasileiros
revela que metade dos entrevistados justificou a prática
do aborto quando vivenciou uma gravidez indesejada. Outro
estudo, entre obstetras e ginecologistas, demonstrou a
mesma inclinação: quando a gravidez indesejada é
vivenciada de perto, torna-se justificada.
Pesquisas de opinião aferem, com freqüência, que a maioria
da população, em nosso país, é contrária à mudança da
legislação referente ao aborto. Ressalvado o maniqueísmo
da indagação – contra ou a favor – que induz os
resultados, é preciso apontar para outra aferição,
indispensável: a sociedade brasileira apóia a prisão de
mulheres que, em contextos múltiplos, sócio-econômicos,
psicológicos, afetivos, realizaram abortos?
Na vida social real não há brasileira ou brasileiro que
não conheça, direta ou indiretamente, quem já tenha
passado pelo drama de fazer um aborto. Certamente, não
predomina no Brasil, a fúria fundamentalista protagonizada
por algumas autoridades de Mato Grosso do Sul.
O Conselho Nacional dos Direitos da Mulher manifesta
inteira solidariedade às 9.922 mulheres mato-grossenses e
reivindica a realização de audiência pública no Congresso
Nacional para debater providências que façam cessar a
insanidade em curso naquela unidade da Federação.
Carta em apoio à descriminalização do aborto. Assine você também
May 06, 2008
Prezados/as parceiros/as,
Representantes dos movimentos sociais entregam carta a
parlamentares a respeito da votação do projeto de lei
1135/1991, que descriminaliza o aborto e prevê o
atendimento às mulheres dentro do Sistema Único de Saúde.
Assine você também a carta. Basta enviar um e-mail para
cfemea@cfemea.org.br
Atenciosamente,
Centro Feminista de Estudos e Assessoria (CFEMEA)
Carta às/aos parlamentares
Prezado/a Sr/a Deputado/a,
Está em pauta na Comissão de Seguridade Social e Família
da Câmara dos Deputados desta quarta-feira, dia 07 de
maio, o Projeto de Lei 1135/1991 que propõe a
descriminalização do aborto. O relator do projeto,
Deputado Jorge Tadeu Mudalen, emitiu parecer contrário ao
texto da proposta, optando por continuar a criminalizar as
mulheres.
O fato de o aborto ser tratado como crime, desde 1940 pelo
Código Penal, não diminui a sua prática e, muito menos,
tem contribuído para reduzir os altos índices de
mortalidade materna. As mulheres realizam o aborto de
forma insegura, colocando em risco sua saúde e vida. A
criminalização tem também gerado situações absurdas como o
possível indiciamento de cerca de 10 mil mulheres pela
prática do crime de aborto na cidade de Campo Grande no
MS, o que atenta contra os direitos humanos dessas
mulheres. Esse contingente representa cerca de 40% de toda
a população feminina cumprindo pena atualmente por todos
os crimes no território nacional (25 mil mulheres). O
contexto mostra o nítido uso político da legislação
punitiva para criminalizar as mulheres, num momento em que
o tema está em discussão na sociedade e no Congresso
Nacional. O fato se constitui em uma verdadeira ação
persecutória sem precedentes que criminaliza o gênero e
não as pessoas.
Pesquisa divulgada pelas Universidades de Brasília (UnB) e
Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) mostra que cerca de 1,5
milhão de procedimentos são feitos a cada ano em condições
inseguras. Diferentemente do que se podia imaginar, a
pesquisa aponta que as mulheres que abortam se encaixam no
perfil da “mulher comum”. Em sua maioria, têm entre 20 e
29 anos, mantêm relacionamentos estáveis, com até oito
anos de estudo, trabalhadoras, católicas, com pelo menos
um filho e usuárias de métodos contraceptivos.
A descriminalização do aborto e seu atendimento no sistema
de saúde é um compromisso assumido pelo Governo brasileiro
em diversas conferências internacionais: sobre População e
Desenvolvimento (Cairo, 1994), sobre a Mulher (Beijing,
1995), além de ter sido recomendado pelo Contra Informe à
CEDAW em 2007. Em âmbito nacional, essa revisão é uma das
políticas aprovadas na I e na II Conferência de Política
para as Mulheres realizadas respectivamente em 2004 e
2007, sendo que essa última contou com a participação de
cerca de 200 mil brasileiras. A legalização do aborto foi
também aprovada como a 11ª prioridade na I Conferência
Nacional de Juventude realizada entre 27 e 29 de abril de
2008.
Ciente deste grave problema de saúde pública, o Executivo
brasileiro, criou uma Comissão, em 2005, com
representantes da Sociedade Civil, do Legislativo e do
Executivo para rever a Lei que pune o aborto, produzindo
uma proposta de Projeto de Lei que tira o aborto do código
penal e regulamenta seu atendimento pelo Sistema de Saúde.
Diante desse cenário, o Congresso Nacional Brasileiro não
pode aprovar propostas legislativas que querem perpetuar
leis que tratam as mulheres como criminosas, sob pena de
violar os compromissos internacionais e nacionais
assumidos pelo Estado. Também é papel do parlamento
brasileiro garantir a efetivação de políticas públicas de
saúde reprodutiva e planejamento familiar, impedindo que
os direitos conquistados, pela luta das mulheres na
construção da Constituição Cidadã, sejam ameaçados e
limitados. Estes compromissos e as reivindicações das
mulheres clamam pela mudança urgente desta situação que
leva milhares de mulheres a sofrerem as conseqüências
desta prática clandestina e, portanto, insegura.
O aborto decorre de gravidezes indesejadas e é sempre uma
decisão difícil para as mulheres, muitas vezes com graves
conseqüências sobre suas vidas. Ao reconhecermos
publicamente a gravidade desse fato e demandarmos a
atenção e compromisso de Vossa Excelência, nosso objetivo
é reduzir o número de abortos realizados.
No dia 30 de abril de 2008, a Comissão de Direitos Humanos
e Minorias da Câmara dos Deputados se pronunciou em nota
oficial e solicitou reconsideração sobre processos por
aborto contra as 10 mil mulheres de MS. Além disso, a
referida Comissão conclamou os/as parlamentares a revisar
a legislação punitiva para adequá-la aos princípios
constitucionais da dignidade, autonomia e direito à saúde
reprodutiva das mulheres.
Cientes da importância do Legislativo na construção e
defesa da cidadania de mulheres e homens, vimos solicitar
o seu apoio à descriminalização do aborto no Brasil. Pela
vida das mulheres e pela garantia dos direitos
reprodutivos e das políticas de planejamento familiar,
contamos com o apoio de V. Exª. para rejeitar o parecer ao
PL nº 1135/91 apresentado pelo Deputado Jorge Tadeu
Mudalen.
Atenciosamente,
Jornadas pelo Direito ao Aborto Legal e Seguro;
Articulação de Mulheres Brasileiras;
Articulação de Organizações de Mulheres Negras
Brasileiras;
Associação Lésbica Feminista Coturno de Vênus (DF);
Católicas pelo Direito de Decidir – Brasil;
CCR - Comissão de Cidadania e Reprodução (SP);
CLAM - Centro Latino-americano de Sexualidade e Direitos
Humanos;
CLADEM Brasil - Comitê Latino-americano e do Caribe para a
Defesa dos Direitos da Mulher;
CFEMEA – Centro Feminista de Estudos e Assessoria (DF);
Grupo Curumin – Gestação e Parto (PE);
Inesc – Instituto de Estudos Socioeconômicos;
Ipas Brasil;
Instituto Patrícia Galvão Comunicação e Mídia (SP);
Justiça Global;
Liga Brasileira de Lésbicas;
Rede Feminista de Saúde;
UBM - União Brasileira de Mulheres
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