Manifesto de Católicas pelo Direito de Decidir
sobre a Campanha da Fraternidade 2008
A Campanha da Fraternidade de 2008 – cujo tema é “Fraternidade e
Defesa da Vida” – vai, mais uma vez, mobilizar a comunidade
católica brasileira para uma reflexão a respeito de valores
cristãos e nos fará pensar sobre o significado da vida. Pela
relevância do tema, é necessário que todas as vozes católicas
sejam ouvidas e nós, como Católicas pelo Direito de Decidir,
sentimo-nos interpeladas a dar nossa contribuição.
Reiteramos com a Igreja que todas e todos têm direito a uma vida
plena e digna, conforme o Evangelho de Jo 10, 10: “Eu vim para
que todos tenham vida, e vida em abundância”. Com ela, lembramos
a necessidade urgente de se reverter o processo de degradação da
natureza, que, certamente, coloca em risco a vida das futuras
gerações. Com ela reafirmamos que defender a vida é lutar contra
a pobreza, a exclusão, a situação de extrema injustiça social do
nosso país. Com a Igreja, entendemos que defender a vida é criar
condições para que se realize o direito a uma vida sem violência,
sem desigualdade de nenhuma ordem, sem opressão, sem exploração,
sem medo, sem preconceitos.
No entanto, como católicas, tendo como referência a tradição
cristã e os valores evangélicos, há questões que nos parecem
fundamentais quando a vida das pessoas está em jogo. Por isso,
queremos interrogar a Igreja sobre as contradições entre seu
discurso e sua prática em relação aquilo que ela apresenta como
defesa da vida.
l Pode-se afirmar a defesa da vida e ignorar milhões de pessoas
que morrem, no mundo todo, vítimas de doenças evitáveis, como a
aids? Seguir condenando o uso de preservativos que salvariam
tantas vidas, numa brutal indiferença à tamanha dor?
l Pode-se afirmar a defesa da vida e condenar as pessoas a
sofrerem indefinidamente num leito de morte, condenando o acesso
livre e consentido a uma morte digna, pelo recurso à eutanásia?
l Pode-se afirmar a defesa da vida e condenar as pesquisas com
células-tronco embrionárias, que podem trazer alento e
perspectiva de vida digna para milhares de pessoas com
deficiências?
l Pode-se afirmar a defesa da vida e dizer que se condena o
racismo quando se impede a manifestação ritual que incorpora
elementos religiosos indígenas e afro-latinos nas expressões
litúrgicas católicas?
l Pode-se afirmar a defesa da vida e condenar a intolerância que
mata, quando se afirma a superioridade cristã em relação às
outras crenças?
l Pode-se afirmar a defesa da vida e eliminar a beleza da
diversidade humana, com atitudes e discursos intolerantes em
relação a expressões livres da sexualidade humana, condenando o
relacionamento amoroso entre pessoas do mesmo sexo?
l Pode-se afirmar a defesa da vida e fazer valer mais as normas
eclesiásticas do que o amor, impedindo a reconstrução da vida em
um segundo matrimônio?
l Pode-se afirmar a defesa da vida e denunciar as desigualdades,
quando a mesma Igreja mantém uma situação de violência em
relação às mulheres, submetendo-as a normas decididas por outros,
impedindo-as de realizarem sua vocação sacerdotal, relegando-as
a uma situação de inferioridade em relação aos homens da
hierarquia católica?
l Pode-se afirmar a defesa da vida, quando se tenta impedir a
implementação de políticas públicas de saúde – como é o caso do
planejamento familiar e da distribuição criteriosa da
contracepção de emergência - que visam prevenir situações que
podem colocar em risco a vida das pessoas?
l Pode-se afirmar a defesa da vida e desrespeitar o princípio
fundamental à realização de uma vida digna e feliz, que é o
direito de decisão autônoma sobre o próprio corpo? Condenar as
mulheres a levar adiante uma gravidez resultante de estupro, a
não interromper uma gravidez que coloca a vida delas em risco,
ou cujo feto não terá nenhuma condição de sobreviver?
l Pode-se afirmar a defesa da vida e cercear o livre exercício
do pensamento, impedindo a expressão da diversidade existente no
interior da Igreja?
Neste manifesto, Católicas pelo Direito de Decidir une-se a
todos aqueles que, dentro da Igreja e na sociedade brasileira em
geral, desejam contribuir para que a defesa da vida seja
compreendida em sua complexidade e se realize o direito de tod@s
de viver com dignidade.
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