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CARTA ABERTA

Por ocasião do documento

"Considerações sobre os projetos de reconhecimento legal das uniões entre pessoas homossexuais"

da Congregação para a Doutrina da Fé

Como católicas e católicos comprometidas/ os com a defesa de um mundo mais humano, tolerante e solidário, não podemos guardar silêncio frente à publicação do documento "Considerações sobre os projetos de reconhecimento legal das uniões entre pessoas homossexuais". Não podemos nos furtar a denunciar a perversidade que ele contém, pois ao negar aos homossexuais a expressão do seu afeto, nega também aos mesmos seus direitos civis como cidadãos plenos. Nos entristece que a igreja católica caminhe na contra-mão de muitas outras instituições que, mesmo não tendo inspiração religiosa, estão fazendo esforços mundiais para fortalecer uma cultura de paz, respeito e tolerância.

A Igreja afirma o caráter sagrado e sacramental do amor sexual. Por que então discrimina e condena as pessoas que expressam este amor? Proibir o relacionamento sexual entre pessoas do mesmo sexo significa promover apenas as causas e valores da heterossexualidade e, portanto, a expressão de amor sexual de apenas uma parte da humanidade. A tradição da Igreja afirma: "O ser humano deve obedecer sempre ao julgamento certo de sua consciência" (Catecismo da Igreja Católica, 1800). Por que neste caso não se recorre à tradição para entender e acolher as pessoas que, fazendo uso de sua consciência, decidem assumir sua orientação sexual?.

Não podemos guardar silêncio frente a um documento que expressa o desejo da hierarquia da Igreja católica de conservar sua hegemonia, aliando-se a forças políticas conservadoras e fundamentalistas. Em vários países, observamos a tentativa da Igreja católica de influenciar nas políticas governamentais, buscando impor sua moral para toda a sociedade, desconsiderando assim, a tradição política moderna de separação entre Estado e Religião. A história já nos mostrou que nos momentos em que a Igreja foi Estado, muitos abusos aos Direitos Humanos foram cometidos em nome de suas posições políticas. Matou mulheres pelo simples fato de pensarem e quererem exercer seus direitos de igualdade; garantiu a exploração dos negros e índios e hoje, vem a público dizer que os homossexuais não devem ter direitos civis assegurados.

Preocupa- nos que esse documento seja um marco de referência para o crescente fundamentalismo religioso, que condena e discrimina pessoas que ousam reger-se por valores diferentes dos estabelecidos. É necessário atestar que a luta pela construção de um novo status para as relações homoafetivas está diretamente relacionada às ações afirmativas pelo reconhecimento dos direitos humanos de quaisquer cidadãs/ ãos, garantidos pelas Constituições soberanas de cada nação.

Seguidoras/ es de uma Igreja definida como "Povo de Deus" pelo Vaticano II, perguntamos: Estaria a Congregação para a Doutrina da Fé legitimada por toda a comunidade católica para expressar em nome da Igreja uma posição tão intolerante como a que encontramos no documento? Um bilhão de católicos/ as no mundo inteiro estão de acordo com o conteúdo deste documento? Que testemunho de respeito, de tolerância, de amor pretende a Igreja Católica dar, quando não é capaz de alegrar-se e fortalecer a expressão de amor entre duas pessoas feitas à imagem e semelhança de Deus?

Queremos reafirmar como católicos e católicas que fazemos parte da Igreja, que não aceitamos esse documento, pois ele reflete apenas uma parcela da mesma. Reflete a visão hierárquica, deixando de contemplar de fato aqueles e aquelas que constroem no dia a dia as comunidades católicas, vivenciando os ensinamentos de Jesus, em defesa de uma sociedade justa, solidária e democrática.

Como católicas e católicos, batizadas/ os que fomos na Igreja, afirmamos a crença em um Deus que nos criou livres e nos quer felizes! Um Deus que alimenta nossa espiritualidade, direcionando-a para o respeito à diversidade, à diferença e à pluralidade como necessárias à realização da liberdade e da justiça.

Solicitamos caso queira assinar ou divulgar a carta entre em contato com Beto de Jesus, betodejesus@uol.com.br, e Yury Orozco, cddbr.yury@uol.com.br.

Mais informações Católicas pelo Direito de Decidir 31079038
 

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